A ESCOLHA DO TEMA
Momento de dúvida, falar sobre a desativação de um presídio localizado no centro de Betim ou sobre a Colônia Santa Isabel, antigo abrigo de hansenianos localizado no bairro Citrolândia, periferia da mesma cidade. Ingenuidade a minha, mas ao votar na Colônia pensei em me deparar com uma realidade menos árdua, menos sombria que as histórias de um presídio. Mal sabia o que estava por vir...
Ressalto que o fator mais decisivo na escolha foi a relevância do documentário para a sociedade e a pertinência do assunto mesmo em dias atuais.
A DIVISÃO DE FUNÇÕES
Em principio pensei em fazer parte da equipe de edição, como de costume, mas o desejo de aprender outras experiências, a possibilidade de novas vivências, me fez escolher fazer parte da equipe de cinegrafia. Devido à ausência de equipamentos nos subdividimos em cinegrafista principal e assistentes de apoio. Ao contrário que se possa imaginar, o fato de não ter em mãos uma câmera não tirou o glamour da minha contribuição.
Além de checar a iluminação, averiguar as tomadas elétricas, se seria necessário o uso de extensão, etc. vimos objetos, alguns foram para mim chocantes, as botas das crianças hansenianas e as fichas de ingresso, semelhantes às fichas policiais, são alguns exemplos. Vimos um álbum de fotos com a evolução da doença em muitos pacientes e uma riquíssima biblioteca com um vasto acervo sobre o tema.
Foto legenda: Rafaela verifica uma das peças que serão filmadas pela equipe de produção de "Sob o olhar"
AS PERSONAGENS
O discurso emocionado de muitas das personagens escolhidas para ilustrar o nosso documentário me sensibilizou, me fez chorar e reavaliar os meus conceitos, minha noção de prioridade, o valor que se deve dar à família, à saúde, etc.
Todas as personagens tem o seu encanto, citarei aqui as que mais me emocionaram e que de alguma forma me identifiquei com seu discurso.
A primeira delas foi D. Antonia, quem vê aquela senhora franzina de aparência frágil, não imagina a força e a vontade de viver que a fizeram superar o trauma de ver sua filha renegada pela própria avó, entregue para adoção, o suicídio do marido e a casa incendiada, além é claro, da descoberta da doença ainda sem cura, carregada de preconceito e o confinamento. Ouvir D. Antonia cantar com toda sua doçura me trouxe de volta o encantamento da infância.
Falando nisso, me lembro com ternura da fala do Sr. José André, quem o vê estacionando com habilidade seu Fusca não imagina que além de sofrer com o afastamento de sua família, ao ver os pais morrerem, ainda teve parte dos pés de mãos mutilados pela doença. Me emocionei muito com as suas histórias, a que mais me marcou foi ouvi-lo contar que raramente conseguia ir para Belo Horizonte, já que ao avistá-lo o motorista logo fechava a porta e arrancava o ônibus. Também foi marcante ouvir sua discrição dos vagões de trem que transportavam os portadores e suspeitos de hanseníase do Espírito Santo para Santa Isabel.
Sr. Félix com sua fala mansa e serena nos conta que escolheu viver por ali, mesmo não sendo portador da doença. Tal comportamento não é difícil de entender já que aquela região é sim carregada de afeto, aquelas pessoas maravilhosas, dotadas de sentimentos nobres conseguiram reverter essas lembranças em superação e alegria de viver.
Helinho também é uma figura interessante, ao vê-lo adentrar o Memorial com suas surradas sandálias havaianas me surpreendi ao ouvir seu discurso. Ele é muito articulado, tem o dom da oratória e nos apresentou cada canto, em alguns momentos vi seus olhos anuveados em lágrimas. Helinho fala com orgulho e propriedade que a colônia foi o berço da cultura na região. Ele conta com fervor dos momentos de rádio, peças teatrais e principalmente dos concertos de jazz, que trazia ouvintes de todos os lugares.
OS DETALHES
No segundo dia de gravação ao entrar na Igreja, domingo logo cedo foi agradável e aconchegante, é claro que os moradores pareciam curiosos e até desconfiados frente às câmeras. Mas o nosso prazer de produzir, a sensação de praticar o jornalismo falou mais alto e despertou em mim a sensibilidade de olhar para além do obvio. Foi exatamente isso que fiz ao examinar todos aqueles quadros que alegravam a pequena Igreja. Naquelas telas minha imaginação foi longe, era um trabalho artístico surreal, totalmente simbólico. Para exemplificar, descrevo algumas delas: vimos Cristo crucificado ao lado de um trailler da Coca-Cola, vimos também apóstolos vestidos com a farda da Polícia Militar, o Batman e o Coringa assistindo a tudo isso.
A TRAVESSIA
Ao ver que naquele lugar os cavalos comungam o mesmo espaço que os moradores, que as antigas bicicletas transportavam famílias e as compras são carregadas com o auxílio de carrinho de mão dava para ver que estávamos em um quase interior. Tive essa confirmação ao ver que um corredor estreito entre duas casas ladeadas por “barrancos” eram uma das pontas da travessia do rio Paraopeba. O percurso é feito pelos moradores há mais de 50 anos, leva aproximadamente dois minutos e custa R$1,00. Quem não pode pagar ou não tem tempo de dar a volta de 13 km pela estrada acaba se aventurando no nado. Parece que as autoridades se esqueceram de cuidar daquela rica região.
MAKING OFF
No início me senti insegura por estar em um bairro até então desconhecido e ladeado pela favela Alto da Boa Vista, onde os índices de violência são crescentes, por um momento tive medo que aranhassem meu carro ou roubassem nossos equipamentos. Logo a sinergia da equipe e o envolvimento com o trabalho me fizeram esquecer a insegurança. Não vou esquecer que fomos “atacados” por um enxame de insetos ao tentar esconder uma fonte do sol. Também será difícil esquecer o delicioso almoço da D. Joelma. Parece que até a Coca-Cola vendida na Colônia Santa Isabel foi mais saborosa depois de uma longa e exaustiva tarde de filmagens.
O FIM
Na verdade, o fim para mim tem com gostinho de começo. Agora recomeça o trabalho e suas outras etapas, a exibição, a divulgação e porque não o incessante pensar em qual será o tema do próximo documentário. Bem que o Richardson avisou que isso vicia...